Nunca eu pensei que viria a passar por algo tão mau, no mínimo dos mínimos.
Se existe algo que muitas vezes anda na boca do povo, e não se dá o devido valor, é dizer que a vida é injusta. Apenas alguém que passe por algo extremamente doloroso à própria alma é que entende o valor desmedido dessa expressão.
Falo, pelo menos, pela perda que tive recentemente, do meu querido avô materno, João. Continuo em negação - não sou capaz de não ter em primeiro pensamento as palavras "os meus avós", quando digo que vou visitar, na verdade, a minha avó. No entanto, ao final do dia, mesmo antes de adormecer, tento sempre mentalizar-me de que nunca mais o verei, nunca mais falarei de livros com ele, nunca mais terei quem me sublinhe as quase fantásticas qualidades do seu clube, nunca mais terei quem me abra a porta, me avise de que são 10 horas da manhã, ou me diga para/pergunte se já comi. Enfim, é difícil lembrar-me de que esses pequenos acontecimentos jamais acontecerão no futuro, no entanto, faço-me recordar disso, para que me mentalize da realidade que irei viver por tempo indeterminado, até um dia, quiçá, o reencontrar.
Saber que devíamos ter feito algo mais por alguém custa ainda mais.
Sei que lhe devia ter dado mais valor, e que devia tê-lo acompanhado mais, pelo menos enquanto ainda me durou. A verdade é que, acho que desde o seu primeiro acidente vascular cerebral - acho que teria os meus 10 anos, pouco mais que isso - tentei sempre afastar-me, devido ao medo que tinha. Mas eu não tinha medo dele, não. Eu estava ciente que ele não estava bem, e que nunca mais seria o mesmo, mas o meu maior medo, era de estar perto dele e ser eu a causadora de algo que tivesse maior gravidade. À medida que o tempo ia passando, até hoje, tendo eu os meus 20 aninhos, fui aprendendo o que fazer e não fazer perto dele. Sabia bem em que estado ele ficava quando se falava em futebol, em guerra - especialmente em coisas turtuosas do seu passado, coisas que viu e que sentiu na pele. Quando se falava nisso, era uma questão de tempo até ter algum ataque, mas sem qualquer gravidade. Eram coisas mínimas, essas.
Na cerimónia fúnebre (nota: o meu avô sempre foi contra a religião, e de alguma forma, parece-me melhor dizer cerimónia fúnebre do que funeral), o Padre - que eu detestei tal carácter, pelo próprio se classificar num estatuto mais elevado do que o da viúva ou dos restantes familiares chorosos, incluindo eu própria - mencionou que apenas teríamos de rezar pela sua alma, para que se lhe fossem perdoados os pecados que cometeu em vida. E eu revolto-me com isso! Revolto-me imenso. Eu sei que ninguém é santo, não há ninguém, nem uma única alminha neste mundo, que não tenha um pecado. Mas aos meus olhos, nunca aquele homem foi mau, nunca aquele homem negou, fosse o que fosse, a quem quer que fosse. Antes pelo contrário, ele dava o que tinha e não tinha, e ainda o pisavam, ainda o queimavam.
Confesso que fiquei magoada com ele, quando a minha mãe me contou que quando o informou que iria ter uma menina, ele não ficou tão empolgado como quando soube que iria ter os dois netos que teve. Mas no entanto, nunca ele me tratou com indiferença, antes pelo contrário. Levava-me a passear, levava-me ao café às cavalitas, dava-me amendoins quando me proíbiam de comer coisas que não devia, esperava e ajudava-me a colher azedas durantes horas a fio... Mais importante de tudo: no dia em que a minha mãe saiu de casa e foi ter com ele e com a minha avó, não foi ela quem me abraçou e confortou; foi ele quem me me abraçou enquanto eu chorava, dizendo que era melhor assim, pedindo que eu a apoiasse e a compreendesse.
Aquela determinada situação era, de facto, um ponto de viragem. Ali, eu só podia seguir dois caminhos: ou voltava-me contra a minha mãe, ou permanecia com ela e apoiava-a. E apoiei, graças às palavras do meu avô, e agradeço por isso. Porque eu não sei onde estaria hoje se lhe voltasse as costas, e mesmo os maus momentos que depois se seguiram, nem sequer se equiparam aos bons de que pude desfrutar.
De certa forma, agradeço imensas coisas à minha mãe, mas também agradeço ao meu avô, e orgulho-me de, graças a ele, ter o gosto pela literatura, escrita, e ainda ter o jeito de debater como ele tinha. Só tenho pena e arrependimento de não o ter demonstrado antes, e é isso que dói, é essa a minha dificuldade, pelo menos por agora...
Amo-te, bigodes.
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