quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aniversários

   Devo dizer que, após tantos anos de esperanças que foram varridas por inúmeras circunstâncias, não sei, honestamente, porque é que achei que este ano seria diferente. Aliás, se eu esforçar a minha memória – o que não me custa nada, sinceramente – este tipo de esperanças ou expectativas vazias já vem desde há imensos anos; digamos, dezanove, dezoito anos, talvez? À volta disso sim.
   É preciso que se note, e vou mesmo sublinhar que eu não guardo qualquer tipo de rancor pelas promessas vazias, esperanças em vão, expectativas não retornadas do passado. Não, isso tudo pertence ao passado, e não me faz a mínima diferença, para ser sincera. Mas o meu humor hoje, que deveria estar numa fasquia de cinco metros ou mais, nem sequer se consegue levantar da cama – ironia do destino, até eu própria vou passar o dia na cama.
   Lembro-me de que as primeiras promessas eram vazias, mas não compreendia porquê, era demasiado nova para tais compressões. No ano que vem, vamos passar o dia todo na praia, só nós duas. Ou então, Para a próxima, vamos até um centro comercial passar o dia, vamos almoçar as duas juntas, e vamos ao cinema, que achas? E eu pulava de alegria porque… Bem, porque honestamente pensava que tal fosse acontecer. Mas nunca me importei muito que isso não acontecesse. Aliás, era-me sempre preferível fazer exactamente a mesma coisa todos os anos, enquanto eu era mais nova e podia realmente fazê-lo: o mais importante, para mim, era estar literalmente rodeada pelos meus familiares, que me viam crescer a cada ano que passava, que me acompanhavam diariamente, ou quase diariamente. Isso é que me importava. Ainda hoje importa, mas hoje é diferente, e eu já lá vou.
   Como é que hei-de fazer a comparação…? De criança pequena, antes do primeiro ciclo, passei para criança um pouquinho maior. As festas já tinham mais crianças, os meus primos eram mais crescidos, e eu podia dizer, com todo o coração, que tinha amigos da escola comigo no meu dia especial.
Os anos passaram mais, a criança tornou-se adolescente. A festa mudou por completo, obviamente. Das duas opções, uma delas concretizava-se, mas ambas eram da mesma essência: ou almoçava com a família, e ia ao cinema de tarde e jantar com os amigos, ou almoçava e ia ao cinema com os amigos e jantava com a família. Essa tradição durou pouco, diga-se de passagem.
   Desde há cerca de sete anos, é que qualquer sentido de tradição se evaporou. Ao início tentei equilibrar as coisas. Foi complicado; tinha que me tentar dividir em três dado que, de certa forma, tinha passado a ter três famílias: a materna, a paterna, e os amigos – amigos que apenas não têm o mesmo sangue que eu, mas que são igualmente família para mim, como se fôssemos literalmente irmãos e irmãs.
   Hoje, o dia é esquisito. Sinto-me esquisita. Claro, pode ser do meu medo/ansiedade, dos problemas recentes de saúde, que realmente não me ajudam em nada, mas ainda assim, o dia é esquisito. Claro, já recebi várias chamadas e mensagens no telemóvel, já me ligaram para casa, já me publicaram votos de felicidade no Facebook®. Mesmo assim, é esquisito. Eu, que gostava tanto que este dia fosse especial, que fazia sempre um grande alarido, com roupa, maquilhagem, para onde vou sair, meu Deus, eu vou ver tanta gente, vai ser tão giro!, e este ano, nada. Estou simplesmente no conforto da minha cama, no meu portátil, frustrada por não ter os livros seguintes da colecção que ando a ler. E fora isso, é um dia normal como todos os outros.
   O mais estúpido no dia de hoje, é que apenas tenho uma parte da minha família comigo. Certo, odeio não estar com a chamada terceira família, os amigos, mas odeio ainda mais não ver cada um dos meus familiares. É demasiado esquisito. Não é natural. Foram eles todos que, à sua maneira, me fizeram crescer. E, menina crescida como sou, vou aguentar o enorme sapo que tenho na garganta, vou evitar fazer uma birra por não os ver, pois sei que daqui a dias vejo todos eles.
   Enfim… Talvez os aniversários agora sejam aborrecidos. O que é ainda mais peculiar; não era suposto eu, como mulher que sou, apenas passar a odiar os aniversários quando chegasse aos 30? Mas também, a Andreia nunca se esquece de me relembrar, desde há dois anos, quantos anos me faltam para os 30… Maldita Andreia, tem cá uma sorte de eu gostar tanto dela.
   Mas é esquisito. Num universo alternativo, eu estaria bem de saúde. Eu estaria na rua, ou num sítio bastante público, com as minhas melhores amigas, irmãs, para mim. Estaria a rir-me, a tirar fotografias memoráveis. A debater livros, filmes, roupas que veríamos em manequins de monstras ou mesmo em quem passasse por nós.

   Enfim… Talvez no ano que vem.

Sem comentários:

Enviar um comentário